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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Palavras de Poesia

Quando se cruzam as águas,
cruza-se o beijo salgado
que atravessa lábios marítimos
rumo às orlas e outros mares.
No cruzamento, a espuma
espumada é cada segredo
segredado pelo bálsamo
embalsamado pelo amor.
Pode o beijo doirar na malha
de um sol quente e confortável
ou pode o beijo ser prata
nas alamedas da luz lunar.
E sempre que se dá, plana
preguiçosa, uma gaivota
bem rente ao fresco do beijo,
quando se cruzam as águas.
 
                                        "Brigados" João pela poesia ...
 
Poema (C) João Pereira
Fotografia (C) Avelaneira Florida

sábado, 19 de março de 2011

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Regresso de Além Tejo...

Aprendamos,amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.

Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.

José Saramago, Aprendamos,amor in Os Poemas Possíveis

Imagem (C)vates.blogs.sapo.pt

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Scriptum



Poderá a imagem
descrever o rosto?
e a voz explicar
a palavra?

Fala-me dos países
sem os nomear
tu sabes que é inútil
repartir as águas

Diz-me apenas
a altura das searas
perto do rio
se o vento tornou
a encher de folhas
o pátio da casa
verde
[...]

in  Os Dias Contados
José Tolentino  Mendonça

Pintura (C) Matisse

terça-feira, 10 de novembro de 2009

epígrafe



De palavras não sei. Apenas tento
desvendar seu lento movimento
quando passam ao longo do que invento
com pre-feitos blocos de cimento.

De palavras não sei. Apenas quero
retomar-lhes o peso a consistência
e com elas erguer a fogo e ferro
um palácio de força e resistência.

De palavras não sei. Por isso canto
em cada uma apenas outro tanto
do que sinto por dentro quando as digo.

Palavra que me lavra. Alfaia escrava.
De mim próprio matéria bruta e brava
- expressão da multidão que está comigo.

José Carlos Ary dos Santos

Imagem (C) Escher

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Celebrar a POESIA

Liberdade


Aqui nesta praia onde

Não há nenhum vestígio de impureza,

Aqui onde há somente

Ondas tombando ininterruptamente,

Puro espaço e lúcida unidade,

Aqui o tempo apaixonadamente

Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Pintura (C) Martí Carbonell

domingo, 13 de setembro de 2009

Antes de Amar-te

Antes de amar-te, amor, nada era meu



Vacilei pelas ruas e as coisas:


Nada contava nem tinha nome:


O mundo era do ar que esperava.


E conheci salões cinzentos,


Túneis habitados pela lua,


Hangares cruéis que se despediam,


Perguntas que insistiam na areia.


Tudo estava vazio, morto e mudo,


Caído, abandonado e decaído,


Tudo era inalienavelmente alheio,


Tudo era dos outros e de ninguém,


Até que tua beleza e tua pobreza


De dádivas encheram o outono.


Pablo Neruda
 
Imagem (C) Google Images

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Poesia para a noite...


Eram de longe.

Do mar traziam

o que é do mar:

doçura

e ardor nos olhos fatigados.

Eugénio de Andrade
Imagem (C) Google Images

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Na noite que chega...


Na noite escreve um seu Cantar de Amigo

o plantador de naus a haver,

e ouve um silêncio múrmuro consigo:

é o rumor dos pinhais que, como um trigo

de Império, ondulam sem se poder ver.


Arroio, esse cantar, jovem e puro,

busca o oceano por achar;

e a fala dos pinhais,marulho obscuro,

é o som presente desse mar futuro,

é a voz da terra ansiando pelo mar.


Fernando Pessoa,
Dom Dinis in Mensagem
Pintura (C)Gustave Courbet-The Edge of the Sea at Palavas

sábado, 6 de junho de 2009

"Rapinanço" assumido...


Fui ali ao meu lado esquerdo (clicar)

e "rapinei" com precisão esta "memória inenarrável"...

porque é preciso NÃO ESQUECER!!!!!!


mas , para não ficar com "azia",

achei por bem purificar-me com o sentir dos poetas!!!!





O que me tranquiliza é que tudo o que existe,

existe com uma precisão absoluta.

O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete

não transborda nem uma fração de milímetro

além do tamanho de uma cabeça de alfinete.

Tudo o que existe é de uma grande exatidão.

Pena é que a maior parte do que existe

com essa exatidão nos é tecnicamente invisível.

O bom é que a verdade chega a nós

como um sentido secreto das coisas.

Nós terminamos adivinhando,

confusos, a perfeição.



Clarice Lispector, Precisão



Pintura (C) Bachelier

domingo, 10 de maio de 2009

poesia para a tarde...


Quando por fim a cifra infinita

que dois mundos combinam

esplender inteiramente seus motivos


a cada um caberá olhar

na lâmina de ouro

um nome inefável


o que buscámos sem um gesto

o que dissemos sem uma palavra


José Tolentino de Mendonça,

Lilases in A Noite Abre Meus Olhos
Pintura (C) Danny Han-Lin Chen, Golden River

sábado, 11 de abril de 2009

AOS MEUS AMIGOS, NESTA MESA!!!!!


Não tenho mais nada senão as asas.

Quando subo os degraus do firmamento,

É com elas que subo e que sustento

O peso bruto desta incarnação.

Asas de penas que me vão nascendo,

E que voam depois, desconhecendo

Que fúria azul as levantou do chão.


Miguel Torga, Ave Poética
in Poesia Completa
Imagem (C) Moira Metcalfe,Blue Fury

terça-feira, 10 de março de 2009

AMOR


Amor é um fogo que arde sem se ver,


é ferida que dói, e não se sente;


é um contentamento descontente,


é dor que desatina sem doer.



É um não querer mais que bem querer;


é um andar solitário entre a gente;


é nunca contentar-se de contente;


é um cuidar que se ganha em se perder.



É querer estar preso por vontade;


é servir a quem vence, o vencedor;


é ter com quem nos mata, lealdade.




Mas como causar pode seu favor


nos corações humanos amizade,


se tão contrário a si é o mesmo Amor?


Luís de Camões, Sonetos
Aguarela © Frédérique Fourquet

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

pego nas palavras do poeta...


Ventos estáveis, gaivotas sobre
os molhes. A rebentação fixa-se
no ouvido. O som da água
nas fissuras da rocha, os gritos
que se perdem nas praias.

Barcos ancorados
na floresta.
Nuno Júdice, Mar
Pintura (c)Elizabeth Bernard

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Quando amanhã


Quando amanhã,

na subida mais íngreme daquele monte,

um deus inscrever seu azulado arco

por sobre o fio geral do horizonte

-sobre o esplendor das asas matizadas

pelo calor da lenha a crepitar, pelo fulgor

das cinzas espalhadas rente à terra

como adubo atirado ao amanhecer -

dirás quanto de mim for posse e perda,

sorriso e choro, sabor de doces frutos

ou parca ilusão:


dirás quanto de tudo a vida se revolve,

se incendeia.


João Rui de Sousa
in Quarteto para as próximas chuvas
Imagem© photobucket.com

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009


Estou olhando os frutos repousados


e as pequenas sombras alongadas


sobre a mesa de madeira e pedra.


A brisa entra por uma porta antiga.


Uma pétala branca cai de uma flor branca.


Sou, mais do que sou, estou


na perfeição das coisas que me envolvem.


Repouso na sinuosa exactidão.


António Ramos Rosa

in A Rosa Esquerda


quarta-feira, 14 de janeiro de 2009


Faço um desenho de palavras com as vértebras
da terra, no mais fundo do chão, onde
começo a procurar o rio secreto
da noite, seguindo as correntes silenciosas
do corpo.É um trabalho que me irá ocupar
por inteiro; e quando chegar ao fim, vendo abrir-se
o estuário do sol nos braços secos da manhã,
levantar-me-ei da insónia em busca de uma revelação
de margens.[...]

Nuno Júdice
in As coisas mais simples
Imagem ©Saito Norihiko

domingo, 11 de janeiro de 2009

momento de partilha...


A boca,




onde o fogo



de um verão



muito antigo



cintila,




a boca espera






que pode uma boca



esperar



senão outra boca?





espera o ardor



do vento



para ser ave,




e cantar.


Eugénio de Andrade,

sábado, 27 de dezembro de 2008

No mistério do sem-fim


















No mistério do sem-fim

equilibra-se um planeta.


E, no planeta, um jardim,

e, no jardim, um canteiro;

no canteiro uma violeta,

e, sobre ela, o dia inteiro,


entre o planeta e o sem-fim,

a asa de uma borboleta





Cecília Meireles
Imagem©Google Images