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domingo, 17 de outubro de 2010
Viagem
Na curva da estrada, um moinho
de velas abertas no ar sem vento: move-as
o eco das palavras esburacadas pelo
uso; empurra-lhe as pás um murmúrio
de asas queimadas pelo sol
da memória.
Subindo as escadas, sinto
um cheiro a mofo de farinha, a impressão
àspera da serapilheira dos sacos, um ténue
calor de barro no intervalo das pedras. Mós
num remoinho de sílabas
esmagadas.
Frestas por entre as telhas. Um
fragmento de céu limpo de nuvens. O
pássaro negro da eternidade
pousa no azul.
in Nuno Júdice,Geometria Variável
Imagem (C) Marcin Wodzynski
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Viagem
Há olhos que só olham o sonho; e, quando
o sonho se dissipa, ficam cegos.
Há pontes por onde não se passa, no inverno,
embora ninguém as guarde: pontes
sem arcos, abstractas como um arco-íris
e frias como a chuva da madrugada.
Um campo de erva que amadurece;
o feitiço fútil dos faróis quando a manhã
limpa as últimas névoas;
um bater de pálpebras como asas:
imagens que lembro
e me restituem os olhos
com que avisto a entrada da cidade.
Nuno Júdice
Pintura (C) Jeffrey Batchelor
sábado, 20 de março de 2010
ESPERANÇA!!!!!
Depois de um dia de chuva, um dia
de chuva. A sequência lógica do tempo
manifesta-se no céu cinzento; porém,
um brilho de sol adivinha-se, por trás
das nuvens, e o homem espera
que depois da chuva venha o sol e que
o sol apague o cinzento das nuvens.
0 tempo, assim, dá-nos a imagem
do que podemos esperar, e ajuda-nos
a viver, nestes dias de chuva, o frio
sentimento do inverno: como se o sol
e a chuva não fizessem parte
desse mundo natural, que olhamos
como se fosse um espelho da alma.
As nuvens não se importam
com isso; e vão cobrindo, à medida
que a tarde avança, a esperança
do verão. Só os pássaros, batendo
as asas contra o céu, nos dizem
que depois do tempo outros tempos
virão, para além de nós.
E a breve alegria do seu voo
é um raio de sol neste dia de chuva.
Nuno Júdice
Imagem(C) Jeffrey Batchelor
de chuva. A sequência lógica do tempo
manifesta-se no céu cinzento; porém,
um brilho de sol adivinha-se, por trás
das nuvens, e o homem espera
que depois da chuva venha o sol e que
o sol apague o cinzento das nuvens.
0 tempo, assim, dá-nos a imagem
do que podemos esperar, e ajuda-nos
a viver, nestes dias de chuva, o frio
sentimento do inverno: como se o sol
e a chuva não fizessem parte
desse mundo natural, que olhamos
como se fosse um espelho da alma.
As nuvens não se importam
com isso; e vão cobrindo, à medida
que a tarde avança, a esperança
do verão. Só os pássaros, batendo
as asas contra o céu, nos dizem
que depois do tempo outros tempos
virão, para além de nós.
E a breve alegria do seu voo
é um raio de sol neste dia de chuva.
Nuno Júdice
Imagem(C) Jeffrey Batchelor
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